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22 de mai. de 2007

VOLTEI, RECIFE



Passei três dias em Recife após um longo intervalo de quase cinco anos sem ir por lá, desde minha formatura no Mestrado na querida e tradicional Universidade Federal de Pernambuco.
'Hellcife', como agora eles mesmos gozam seu destino de tragédia violenta, pelos índices assustadores de criminalidade urbana, infelizmente, como a maioria das grandes cidades brasileiras; mas já há reações governamentais para agir com mais eficiência e tentar restaurar uma certa ordem no caos. Às vezes me pergunto como o brasileiro, tão alegre e acolhedor, pode ser tão autodestrutivo.Talvez mais policiamento ostensivo ajudasse nessa tarefa. Talvez uma máquina do tempo para 1808, ou antes, além... Havia tanto a ser modificado, afinal a história não perdoa os erros que se acumulam impunes.

Mas sempre adorei aquele cidade, que está em minha memória afetiva desde que eu tinha uns nove anos, em 1977, e ia passar férias na casa de meus tios que ainda moram lá; aquela cidade, bem maior do que São Luiz na época, era também a maior que eu, garoto, havia conhecido até então; ela me parecia assustadora e ao mesmo tempo instigadora, me forçando a tentar desvendá-la na duração curta das férias escolares. Resgatei fotos antigas onde me vejo no Centro, Espinheiro e Boa Viagem, por onde estavam os amigos da família e vejo como a cidade mudou, claro, mas preservou uma identidade que me fariam recordá-la mesmo que tivesse passado esses trinta anos sem ir lá.Lembro do agradável cheiro de pão que invadia o segundo pavimento da casa de meus tios na Estrada de Belém, na Encruzilhada, vindo de uma padaria próxima. Desde então associo aromas aos lugares em que estive (sem trocadilhos, o da verdadeira Veneza não é dos melhores).

Descobri que o Marista da Conde da Boa Vista deu lugar a um templo de consumo, mas descobri como ficou agradável o Paço Alfândega, para onde, aliás, me levei em duas tardes na companhia do amigo Veloso Sobrinho, consumidas entre as prateleiras da Livraria Cultura e, claro, as seções de cds e dvds, entre xícaras de café. Lamento ter perdido a canja de meu conterrâneo Turíbio Santos na sexta, mas o congresso jurídico ainda não tinha acabado. Essa foi a maior perda da viagem.Aliás sempre gostei da musicalidade pernambucana de Alceu, Geraldo Azevedo e, mais recentemente, Lenine, a quem alguns atribuem uma co-paternidade da tal 'nova' MPB. Vi uma banda de uns garotos que tocam muito bem, chamada Nitro; abrem com Franz Ferdinand e fecham com Leão do Norte, de Lenine, o que não é pouco; o vocalista tem presença de palco, canta bem e é simpático. Olho vivo neles. A exemplo dos aromas a que me referi antes, a música também abre portais no tempo de minha memória.

Encontrei João Mauricio Adeodato, meu mestre e guru, também adorado nas faculdades maranhenses, o que sempre rende uma conversa agradável. Ele fez com o brilhantismo de sempre uma palestra sobre o pensamento de Hannah Arendt. Em breve estará conosco novamente, por certo.

Nós maranhenses temos muito em comum com os pernambucanos, a começar pelo orgulho de um passado rico, da cultura estupenda, da farta arquitetura urbana, da alma generosa do povo, da acolhida dada a todos que nos visitam e da esperança de um futuro econômico que retome os rumos de crescimento, interrompendo a histórica irresponsabilidade republicana que abandonou o Nordeste a feudos políticos. Por isso nos é tão difícil aceitar docilmente preconceitos regionais disseminados pelos de sempre, aqueles que não querem integração alguma, mas sim desagregação como fator de dominação política.

Fecho com Lenine: "Solidão, o silêncio das estrelas, a ilusão; eu pensei que tinha o mundo em minhas mãos, como um deus e amanheço mortal. E assim repetindo os mesmos erros dói em mim ver que toda essa procura não tem fim e o que é que eu procuro afinal? um sinal, uma porta para o infinito, o irreal, o que não pode ser dito afinal; ser um homem em busca de mais" (O silêncio das estrelas).

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