
Praça da Apoteose, Rio de Janeiro, 20 de março de 2009. Por uma dessas ironias da vida, eu, que muitas vezes me reconheci como um brasileiro meio atípico, desses que não gostam de carnaval, nem de malandragem, de repente, pela primeira vez, cruzava a pé a Apoteose, templo do carnaval carioca, não para ver o desfile das escolas de samba, mas sim para assistir uma das mais cultuadas bandas de rock inglês da atualidade, o Radiohead.
O Radiohead é um desses grupos que eu tive o privilégio de acompanhar desde seu início, quando lançou o primeiro álbum ‘Pablo Honey’, em meados de 1993. Encontrei esse disco em minha estante, mas não lembro mais onde o comprei, talvez em uma loja que nem exista mais. Porém, lembro que na época o mundo ainda estava sob o impacto do movimento musical do chamado ‘grunge rock’ de Seattle, onde surgiram bandas como Soundgarden, Mudhoney, Pearl Jam e, claro, Nirvana. De modo que a sonoridade dos ingleses de Oxford foi logo associada ao Nirvana, comparação que o tempo revelou ser despropositada. Meus amigos sabem que “Pablo Honey” está na primeira linha no meu quadro das 78 capas. Enfim, eu não queria perder o primeiro show deles no Brasil.
Antes do início do show o Radiohead foi precedido corretamente por Los Hermanos e pelo Kraftwerk, os alemães pais do tecnopop. Às 22:35h o Radiohead entrou no palco com uma introdução percussiva mais longa de ‘15 step’ que até por um instante lembrou uma bateria de samba, mas ficou só nisso, pois logo veio a massa sonora de guitarras, synths e um baterista Phil Selway particularmente inspirado na baqueta. Depois, em portunglês claro, o vocalista Thom Yorke saudou o público ao dizer ‘Boa noite, somos o Radiohead’. Em seguida, vieram “airbag”, “there there”, “all I need”, “karma police”...
Esse show foi bem apropriado para mostrar como a música tem um poder de mexer com as pessoas. Sem contar a turma que fica próxima ao palco (sempre incansável), as reações eram bem intensas; perto de nós havia um garoto de 20 e poucos anos que dançava, cantava, pulava, deitava, abraçava a namorada, puxava o boné sobre os olhos como se estivesse refletindo sobre a vida. Quando tocou a música “house of cards” do disco "In rainbows" muitos casais começaram a dançar grudadinhos ou a inventar divertidas coreografias em que não se desgrudavam (just lovers, claro), no que me lembrei do peculiar estilo maranhense de dançar reggae. Após tantos shows de rock em minha estrada não deixou de ser curioso que a primeira vez em que lágrimas me vieram aos olhos tenha sido quando um inspirado Thom Yorke cantou Karma Police, afinal o álbum “Ok computer” é um dos cem melhores de todos os tempos. E sua capa também está em meu quadro. O que vem ao coração e à mente é torrencial.
A banda toda estava no clima de celebração com a cidade, o país e a platéia, a ponto de o guitarrista Ed O’Brien ter dito para o riso geral, em portunglês, que o show foi ‘bom pra c*’. Depois de vinte anos tocando juntos percebe-se que a banda ainda curte tocar junto e tocam próximos uns dos outros; é impressionante o visual dos telões, com uma predominância da cor azul, alternada pelo vermelho nos momentos mais elétricos. Denise fez uma observação que achei bem apropriada sobre o carisma de Thom Yorke no palco, comparando-o com uma pipoquinha que se diverte pulando sozinho; esse autismo dele me lembrou muito o jeito de Ian Curtis, do Joy Division e da primeira fase de David Byrne nos Talking Heads. Seu carisma é assombroso. O posterior videoclip "Lotus flower" captou bem isso. Apesar de toda a diferença sonora entre os discos iniciais, mais calcados em guitarras básicas, e os três últimos, com guitarras etéreas, percussão e synths, ‘Creep’, do primeiro disco, que eles não tocavam mais ao vivo, não ficou deslocada e ainda soa atual e emocionante quando foi executada depois de meia noite, no segundo bis.
Ao final, aplaudi de pé, emocionado. Vi que Denise também gostara (eu estava receoso de que ela não gostasse muito, afinal ela é uma ouvinte indireta do que eu coloco para tocar em casa); isso tudo me trouxe uma felicidade como há algum tempo eu não tinha. A noite de lua nos acompanhou de volta ao hotel, mas a música permaneceu viva em minha memória por pelo menos mais uns dois dias. Eu até esqueci as neuroses que cercam o Rio e aproveitamos bem a viagem de três dias, como um armistício com uma cidade tão encantadora, complexa e paradoxal, como todo o Brasil, meu apaixonante país. Talvez um dia eu até vá assistir os desfiles de carnaval na Apoteose; mas irei com a camiseta da banda que eu trouxe de lembrança.
Na minha memória ficou a lembrança de que o Radiohead é azul. Bravo.
O Radiohead é um desses grupos que eu tive o privilégio de acompanhar desde seu início, quando lançou o primeiro álbum ‘Pablo Honey’, em meados de 1993. Encontrei esse disco em minha estante, mas não lembro mais onde o comprei, talvez em uma loja que nem exista mais. Porém, lembro que na época o mundo ainda estava sob o impacto do movimento musical do chamado ‘grunge rock’ de Seattle, onde surgiram bandas como Soundgarden, Mudhoney, Pearl Jam e, claro, Nirvana. De modo que a sonoridade dos ingleses de Oxford foi logo associada ao Nirvana, comparação que o tempo revelou ser despropositada. Meus amigos sabem que “Pablo Honey” está na primeira linha no meu quadro das 78 capas. Enfim, eu não queria perder o primeiro show deles no Brasil.
Antes do início do show o Radiohead foi precedido corretamente por Los Hermanos e pelo Kraftwerk, os alemães pais do tecnopop. Às 22:35h o Radiohead entrou no palco com uma introdução percussiva mais longa de ‘15 step’ que até por um instante lembrou uma bateria de samba, mas ficou só nisso, pois logo veio a massa sonora de guitarras, synths e um baterista Phil Selway particularmente inspirado na baqueta. Depois, em portunglês claro, o vocalista Thom Yorke saudou o público ao dizer ‘Boa noite, somos o Radiohead’. Em seguida, vieram “airbag”, “there there”, “all I need”, “karma police”...
Esse show foi bem apropriado para mostrar como a música tem um poder de mexer com as pessoas. Sem contar a turma que fica próxima ao palco (sempre incansável), as reações eram bem intensas; perto de nós havia um garoto de 20 e poucos anos que dançava, cantava, pulava, deitava, abraçava a namorada, puxava o boné sobre os olhos como se estivesse refletindo sobre a vida. Quando tocou a música “house of cards” do disco "In rainbows" muitos casais começaram a dançar grudadinhos ou a inventar divertidas coreografias em que não se desgrudavam (just lovers, claro), no que me lembrei do peculiar estilo maranhense de dançar reggae. Após tantos shows de rock em minha estrada não deixou de ser curioso que a primeira vez em que lágrimas me vieram aos olhos tenha sido quando um inspirado Thom Yorke cantou Karma Police, afinal o álbum “Ok computer” é um dos cem melhores de todos os tempos. E sua capa também está em meu quadro. O que vem ao coração e à mente é torrencial.
A banda toda estava no clima de celebração com a cidade, o país e a platéia, a ponto de o guitarrista Ed O’Brien ter dito para o riso geral, em portunglês, que o show foi ‘bom pra c*’. Depois de vinte anos tocando juntos percebe-se que a banda ainda curte tocar junto e tocam próximos uns dos outros; é impressionante o visual dos telões, com uma predominância da cor azul, alternada pelo vermelho nos momentos mais elétricos. Denise fez uma observação que achei bem apropriada sobre o carisma de Thom Yorke no palco, comparando-o com uma pipoquinha que se diverte pulando sozinho; esse autismo dele me lembrou muito o jeito de Ian Curtis, do Joy Division e da primeira fase de David Byrne nos Talking Heads. Seu carisma é assombroso. O posterior videoclip "Lotus flower" captou bem isso. Apesar de toda a diferença sonora entre os discos iniciais, mais calcados em guitarras básicas, e os três últimos, com guitarras etéreas, percussão e synths, ‘Creep’, do primeiro disco, que eles não tocavam mais ao vivo, não ficou deslocada e ainda soa atual e emocionante quando foi executada depois de meia noite, no segundo bis.
Ao final, aplaudi de pé, emocionado. Vi que Denise também gostara (eu estava receoso de que ela não gostasse muito, afinal ela é uma ouvinte indireta do que eu coloco para tocar em casa); isso tudo me trouxe uma felicidade como há algum tempo eu não tinha. A noite de lua nos acompanhou de volta ao hotel, mas a música permaneceu viva em minha memória por pelo menos mais uns dois dias. Eu até esqueci as neuroses que cercam o Rio e aproveitamos bem a viagem de três dias, como um armistício com uma cidade tão encantadora, complexa e paradoxal, como todo o Brasil, meu apaixonante país. Talvez um dia eu até vá assistir os desfiles de carnaval na Apoteose; mas irei com a camiseta da banda que eu trouxe de lembrança.
Na minha memória ficou a lembrança de que o Radiohead é azul. Bravo.
Um comentário:
Olá, professor! Congratulações pelo blog e pela coluna na imirante. Apeteci-me ao ver seus posts, que denotam grande holismo. Ah! Concordo plenamente com o que foi dito neste post. Afinal, o preconceito contra os nordestinos é deveras pungente em nosso 'Brasil sulista' e, infelizmente, até mesmo em nosso próprio nordeste, que desconhece sua cultura e relega ao esquecimento e às migalhas seus escritores e artistas. Pergunte aos jovens se lêem Nauro Machado, Montello, Mohana, e, provavelmente ouvirá: 'Quem são estes aí?'. No mais, estou indo embora. Parabens pelos escritos, abraço.
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