
A natureza anda furiosa em 2010. O réveillon já foi marcado tristemente pela tragédia do deslizamento da encosta em Angra dos Reis; dias depois, o Haiti, já tão castigado pela ausência de tudo, sofreu um terremoto devastador; o Chile sofreu depois outro terremoto terrível, com menor destruição diante da infinita melhor qualidade de suas construções. A terra treme de novo depois no México; inundações na Austrália e na Bahia; neve pesada no inverno glacial do mundo setentrional; agora, novamente o Rio de Janeiro sofre com deslizamentos fatídicos nas suas cidades; está provado que sua geografia é tão bela quanto perigosa, tão fatal quanto o canto de uma sereia invejosa.
Reza a lenda que Orson Welles, quando esteve no Rio na década de 30, olhou para cima e perguntou o que eram aquelas pequeninas construções no morro; alguém disse “- é uma favela!”. O cineasta então retrucou: “- casas assim, sem segurança alguma? Acabem com isso ou vai virar um monstro”. Virou.
Construções irregulares nas curvas da Serra do Mar, nos resquícios da Mata Atlântica, sem alvarás concedidos, permitidas pela omissão conveniente de governantes incapazes ou inescrupulosos, que contabilizavam apenas os votos dos pobres e felizes ocupantes das encostas, que sem lugar melhor para ir, lá continuam a se avolumar. Não deveriam estar lá. Mas o folclore e o culturalismo se encarregaram de mitificar o morro; o Carnaval o redime a cada fevereiro; as drogas o infestam de medo.
O problema habitacional no Brasil é tão grave quanto urgente; as medidas iniciadas pelos programas federais de remanejamento tentam recuperar décadas de inoperância administrativa; não será resolvido em uma década, quiçá nem em três.
E tudo fica como está: a natureza joga dados decidindo entre a vida e a morte após uma chuva pesada.
Meu luto profundo pelas vidas perdidas.
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