Os Europeus acumularam uma série de mágoas e ressentimentos ao longo dos tempos. As guerras civis, rivalidades étnicas (antiga União Soviética e Iugoslávia), políticas (Franquismo, Salazarismo, Fascismo), regionalismos (Espanha e Itália), escaramuças religiosas (Guerra de Trinta Anos ou Irlanda do Norte) deixaram sequelas.Poucos temas, porém, são tão recorrentes e dolorosos quanto o colaboracionismo durante a Segunda Guerra Mundial, não apenas na França ocupada ou na França de Vichy, mas em todos os países ocupados pelos nazistas ou simpatizantes, como na Croácia, na Hungria, na Bulgária, na Holanda, na Bélgica, na Noruega e na Dinamarca.
O livro VILLA AIR-BEL: 1940, da escritora canadense Rosemary Sullivan, traz um excelente relato sobre o refúgio da intelectualidade européia durante a ocupação nazista na Europa da 2ª Guerra Mundial. É um livro de história em forma de romance; nele desfilam personagens reais, como se fossem figuras ficcionais; a fuga angustiada e o suicídio de Walter Benjamin na fronteira da Espanha abre o livro; depois, narra as dificuldades para sobrevivência dos escritores e artistas e suas famílias; o terror da Gestapo; as milícias fascistas francesas; a burocracia americana para conceder vistos (não é de hoje!). A verdade é que nem tudo era Resistência; havia simpatia de grande parte dos franceses pelo nazismo; o país estava dividido entre fascistas, liberais e comunistas e muitos achavam que Hitler ia trazer ordem, como dizia o jornalista colaboracionista Pierre La Rochelle. As milícias de jovens fascistas perseguiam casa a casa os inimigos do regime e os indesejados. A Lista Otto de setembro de 1940 trouxe o nome de todas as publicações proibidas pelo regime francês; o Estatuto dos Judeus, de 03/10/1940, excluía-os de todos os cargos públicos, universidades e imprensa, iniciando a segregação sistemática dos judeus franceses, como feito sete anos antes na Alemanha. Mais de 40.000 estrangeiros foram presos na França em campos de confinamento, muitos deles alemães antinazistas e que haviam fugido do III Reich.
O livro gravita principalmente em torno da atuação da organização americana de resgate (CAS - Centre Americain de Secours) de intelectuais perseguidos pelo nazismo. Thomas Mann, Jacques Maritain e Jules Romain elaboraram a primeira lista do CAS para salvar intelectuais perseguidos pelo nazismo; e Varian Fry foi encarregado de ir a Marselha montar a rede de apoio e socorro. Entre 1940 e o fim da guerra a CAS conseguiu ajudar 1.500 pessoas a fugir da França ocupada, ajudou financeiramente 4.000 pessoas e ajudou outros 300 militares britânicos a fugir. Alguns dos nomes resgatados do terror nazista incluem Hannah Arendt, Claude Levi Strauss, Heinrich Mann, Victor Serge, André Breton, Marc Chagall e Max Ernst. Louvável, inobstante, o papel desempenhado por países como os Estados Unidos e o México, que acolheram milhares de refugiados à época. E Portugal, mesmo sob o regime de Salazar, “enquanto o ditador dormia”, como parodiou Domingos Amaral, permitiu a saída de milhares de fugitivos através do porto e do aeroporto de Lisboa. Varian Fry foi homenageado após sua morte, em 1967, com a medalha do congresso nos EUA e a medalha “Justos entre as nações’, em Israel.
Marselha foi, na época, o último porto livre, o último esconderijo de quem fugia do terror e da brutalidade nazista. Os que conseguiram fugir ajudaram a escrever essa história de superação e dor.
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